Pedra sobre pedra

Construí um abrigo solitário no interior da minha casa
para me aperfeiçoar na arte de desaparecer a qualquer hora do dia.
Ela teria todos os mantimentos necessários que serviriam
para o caso de um iminente cataclisma.
Assim, quando eu der as caras na sacada, com os olhos retorcidos
pelo olho do tornado
e os sobreviventes entregarem panfletos de porta em porta,
com notícias do estrago,
iria refazer meus planos naquele cenário inédito.
Meu reino se erguirá da ruína imensa e erma,
sobre a superfície sólida de uma pedra abandonada,
numa cidade muda pelo som da sirene noturna.
Meu abrigo, entretanto, continuaria intimamente guardado
nesse planeta desconhecido,
para futuros desastres.
Num eu que não conheço
deserto de mil graus.

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