No tempo em que eu não te vejo,
compro uma garrafa no primeiro bar que aparece e bebo, bebo o mais rápido para
verificar o fim de alguma coisa. Primeiro a cerveja, que se pede uma a uma, e
que se exaure em seguida, pois numa análise é preciso de vários exemplos, vivos, e
edificar qualquer tese exige gestos repetidos fraudulentos. Para se concluir de que não é uma
ilusão é preciso de trabalho ardiloso. Mas também de uma ciência. Não, eu não acho que tenhamos
sido uma ilusão, sequer uma ciência. Que a nossa história tenha sido construída
sobre o nada. Não sei de modo algum falar sobre a nossa história. E por isso eu
bebo uma cerveja atrás da outra, para não ver o fim dessa narrativa que
fantasiamos tantas vezes. E nesse jogo, eu tento variar as regras, inverto o
tabuleiro com as peças brancas e pretas misturadas, e com mais uma cerveja que
peço pro renato, no banquinho em que tem uma goteira no toldo bem em cima da
minha cabeça, desenvolvo estratégias inéditas nesse modo de jogar. O que eu faço nesse instante é
encarar o casco cheio, sem me mover, e constatar que o mundo existe sem a nossa
presença. Nesse lero, sim, com você, o que eu quero realmente não é falar sobre
a garrafa imóvel em cima da mesa, ou como podemos transformar a rotina em algo
entediante, sobretudo sobre o fim inevitável dessa cerveja que acabo com sequências
de goles bem servidos, gulosos, como se estivesse te amando. É o bom que resta em nós. E que sempre foi
bom. Pelo menos assim eu tento minimamente me conectar em uma outra frequência
com esse líquido que engulo, associando-o à filosofia de quinta e ao amor brega, provocando a mudança da minha perspectiva sobre como é possível se relacionar com alguém depois de ter te visto escovar os dentes, e sobre as múltiplas variáveis dessa garrafa de cerveja que você não bebe.
Eu, sim, bebo. E bem. Entendo-a infinitamente.
Sabendo que não sairei do lugar se não decidir, vou para a estação de trem em direção à usp.
Sabendo que não sairei do lugar se não decidir, vou para a estação de trem em direção à usp.
O auditório não estava assim tão
cheio quando me sentei, junto com um menino que não tenho muita afinidade, mas
é a afinidade que tenho, um papo meio frouxo que desenvolvo por carência, como
as cadeiras vazias. Pelo menos com sorte de encontrar apoios de braços inteiros
e escrever no diário. As luzes se apagaram e eu via pouca coisa, por conta dos
óculos cujo grau aumentou, também pela situação. Eu no meu canto, escondido nas
laterais.
A apresentação não tinha sequer
começado, uma exposição da biblioteca e seus cômodos, a data de criação e o protocolo
institucional sempre a mesma ladainha.
E no tempo em que não te vi eu
costumo chegar bêbado nesse lugares, assim crio coragem pra te evitar, mentindo pra mim que nosso caminho não se cruza facilmente, embora
frequentemos os mesmo lugares, a mesma universidade, o mesmo bar do samba das sapas desse sábado no Largo da Batata. E não era
de se esperar que aquilo fosse acontecer. Que estivéssemos ao acaso um do
lado do outro, na batucada, e depois naquele escuro do auditório, tão denso, que permite esse tipo de acidente.
E depois que eu te vi, foi como
se todo nosso filme passasse pela apresentação de power point. E não pude fazer diferente, foi engraçado,
e te chamei para conversar. Fazia tempo que não falávamos, assim, um olhando
pro fuço do outro. Revivendo pequenas lembranças em breves silêncios. Eu não
vou escrever sobre a gente ali, sentados numa passagem da escada, porque também eu nunca sei terminar um texto.
O que eu quero, com tudo isso,
além desse papo de cerveja, além desse auditório, além do nosso toque de rosto
e sua barba, aquele carinho que me dá vontade de te agarrar, e como dá. O que eu quero é
te dizer que quando cheguei em casa tocava a música Sonhos, do Caetano, em versão tango. Esse texto inteiro é só pra isso. Pra que você também saiba que essa versão é mais animada que a original e embalou minha chegada em casa. Que tudo
acontece ao mesmo tempo, nossos encontros, nossa confusão tão efusiva. O que eu quero é não saber estruturar nossa
ficção e nosso acidente, mínimos.
mas não tem revolta eu só quero que você se encontre saudade até que é
bom melhor que caminhar vazio a esperança é um dom que eu tenho em mim eu tenho
sim não tem desespero não você me
ensinou milhões de coisas tenho um sonho em minhas mãos amanhã será um novo dia
certamente eu vou ser mais feliz
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