baseado no filme HyperNormalisation
você se parece com os personagens do filme do Tarkovsky. eu sei que você não viu, mas deveria, já que os filmes são baseados na sua personalidade, no jeito em que seus olhos olham para a parafina quente pingando no piso de uma piscina abandonada, igual do Nostalgia. em seguida você pareceria um tanto o discurso do Reagan, o que o faria deixar o papel de filmes lado b para vencer as presidenciais de uma grande potencia mundial em alto estilo, receber uma quantidade desmensurada de flashes que o fariam ser quem você nasceu para ser, um presidente, um homem da política, um god bless america. e seu currículo poliglota, diplomata, jurista, executivo que com um comando de voz seria capaz de interromper uma guerra iminente, justapor territórios e adequar estados espalhados pelo mundo ao seu conceito de democracia. depois, já com alguns anos nessa posição, purpurinoso em redes de sinal aberta, desmedido em usos de armas bélicas e biológicas, concluiria, no finzinho dessa epopéia dialética, de que os seres humanos são feitos de carne e que cada cidadão tem o direito de comer o que bem entende. que somos aquele osso de galinha descarnado, seco, com um teco de nervo pregado na ponta do metacarpo. um dispositivo com membros que servem para o voo e que devem possuir a autonomia necessária para saber a hora exata de migrar.
nisso eu seria o coadjuvante, o dublê que faz saltos olímpicos perigosos, um alguém que substítuisse os riscos que poderiam atingir um indivíduo em sua soberania. eu conversaria em você em privado, minha Jane Fonda masculina. eu trocaria mensagens subliminares com você e também pornografia, mesmo com a suspeita de estar sendo vigiado pelos agentes de segurança pública, da possibilidade de acidente de um investigador hackear seu celular e descobrir todos nossos planos e nossa intimidade, de invadirem o códigos que supúnhamos ser ininteligíveis em qualquer outra linguagem que não a que criamos durante esse tempo.
na sua candidatura, nos pronunciamentos públicos, eu não teria coragem de permanecer naquela sintonia. encomendei uma antena parabólica e um aparelho de tv por assinatura e quando você se posicionasse frente às câmeras e a audiência nacional se atentasse ao discurso que escreveu enquanto estava de cueca no quarto, eu desaparecia para dar seu completo protagonismo. só eu saberia, entretanto, a forma como pressiona a extremidade do bigode com a ponta do indicados e do dedão, que é como se comporta quando não está sendo transmitido e não há aquele treinamento da equipe de fisioculturistas gestuais programando, segundo por segundo, suas articulações.
quando abrisse a boca, eu apertaria imediatamente o controle remoto numa relação numérica com sua idade e, com um olhar vago, abissal, veria um episódio de Animal Planet sobre a disputa violenta por comida entre dois animais selvagens.
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