Às vezes eu fujo,
que é para não dar tanta pala
desse confessionário paupérrimo que ocorre aqui dentro
do quarto.
Viu, você não sabe quantos dias
eu passei sem ligações suas.
Só eu sei, porque aprendi a contar
desde pequeno
os números que não existem no calendário convencional.
Eu e você somos convencionais, meu bem,
desde os mínimos detalhes,
aos mais extravagantes planos rabiscados nos anúncios da agência
de viagens:
até hoje sonho com o Uruguai que iríamos
de mala e cuia,
roupa lavada, cargueiro e barraca,
eu e você visitando chapados a casa de um literato famoso,
cumprimentando um Mujica a cada esquina,
eu te chamaria: mi amor,
con usted yo podría, con mi propria fuerza,
edificar un imperio.
Seus olhos pactuariam, primeiramente, com essa minha afirmação,
olhariam firmes para a paisagem do país
e voltariam para mim com aquele ar de Monalisa,
indecifrável.
Ou de Betty Boop. Eu sempre soube que aquela cara achatada,
tem um caos no meio da fuça, como qualquer jazz que se aprecie
porque sorriso algum engana certas vibrações
e nesse momento eu me sinto vacinado.
Logo em seguida, desconstruiria a ideia tola,
pois não quer nenhum presente grande,
uma casa discreta é só mon petit loup.
Às vezes eu fujo,
para um território estrangeiro
nas divagações da própria cabeça
flutuando entre o almoço e papos de política:
eu deveria estar comendo legumes
ou no ônibus do movimento estudantil para Brasília?
E isso é só o começo,
bem convencional como o fim,
quando se joga confete no ar, o carnaval
já foi fim de mês passado,
se eu soubesse, teria me agarrado firme no folião
para perder o bonde da conversa,
dos planos, da minha cara de tacho,
das fugas que não sei para que servem
da cara de gente famosa
dessa paquera, uma merda de furada certa.
Eu queria:
um minuto de nossa conversa na caixa-postal.
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