Chorar por tudo que se perdeu...

Ps.: e se ganhou

Capítulo "Legislação de trânsito"

Normas de circulação e conduta

Parágrafo 5
- estar em condições de dirigir com atenção, emocionalmente equilibrado.

Caixa Postal

Recado 09h34min

Oi

Faz tempo que eu não escuto a sua voz e a panela está no fogo. Hoje eu acordei e fazia muito frio, tanto que me embrulhei e me enfurnei embaixo do cobertor, mas foi aí que me dei conta de que estamos no Brasil e que aqui não faz tanto frio assim. Será que não estou alucinando? Será que não acordei e estava no inverno de um país como a Áustria? Um carro passa veloz em cima de mim. Desço até a estação e vejo o Pico do Jaraguá. Incrivelmente, me deparo com muitas pessoas no caminho, todos usam agasalhos, luvas e toucas de lã. As pessoas andam juste à cotê dos muros, procuram algum lugar que dê maior sensação de calor, e encolhem os braços. O corpo se curva como se fosse uma lombada, mas na verdade são pombos. Você já viu pombos com frio? Esses dias eu sonhei que voava e que ia até a Antártida, talvez só para averiguar se é realmente esse o frio que estou sentindo. Me deparo outra vez com a mesma pergunta: é possível sentir frio no Brasil? Tomei muito depressa um chá de hibisco que fiz e queimei o céu da boca. Se naquela época eu tivesse me dado conta da expressão, com certeza teria laçado com a minha língua a constelação de sagitário que se constrói na sua boca. Esses dias eu só penso em viajar, nunca perco a esperança do trem descarrilhar e seguir rumo a um país nórdico.

Então, quando você me liga para viajarmos juntos?

Um beijo

Recado 09h37min

Oi

Estou te ligando de novo para falar um pouco mais sobre o tempo, pois é um assunto que gosto de falar. Você já reparou como o sol às vezes bate no nosso nariz e a sombra inclinada sobre nossas bochechas parece a lâmina de uma faca? Esses dias eu lembrei que esqueci uma blusa minha na sua casa, faz tempo, ela deve estar em algum andar da sua prateleira de metal que fica rente à parede. É a única que tem no seu quarto, porque você não tem muitos móveis. Essa blusa é importante pra mim, comprei num brechó em Paris enquanto eu estava fazendo intercâmbio. Nos bairros do norte tinham lojas baratas e eu lembro de ter ficado quase duas hora para achar essa blusa que comprei por um euro. O nome da loja era qualquer coisa parecido com girassol, flores que gosto.

Quando é que posso passar aí na sua casa para buscar?

Me liga, tenho saudades.

Rombo

Não é a distância na parede,
é um rombo enorme que eu tenho no quarto.
Quando chove, a água escorre,
vai devagar do teto até o chão,
formando poças escuras
onde é possível ver meu reflexo
— único espelho da casa.
Ela goteja na quina da cama
antes de você se encostar nela
e ancorar um navio.
O ventilador pregado, um dia,
desabou em cima de mim e quase me matou.
Eu morreria, na melhor das hipóteses,
com a hélice fincada no lugar do pulmão
que estrago todos os dias.
Imagine um prédio inteiro submerso
e uma televisão que transmite notícias sobre
a conjuntura política atual e o trânsito nas Marginais.
Eu mergulharia nele,
subiria a nado as escadas de emergência até o oitavo andar,
tentaria remendar a enchente e quem sabe
seguir carreira no mergulho,
descobrir uma nova profissão
com o objetivo de caçar fôlego
em outros rombos.

Nota em alto mar

Seu sono não está comigo,
nem essa noite que
eu vejo passar.
Tenho uma voz que chama
entre os navios,
qualquer canto será
uma forma de vida.
Vejo, no mar, uma embarcação
que desaparece
como esse ruído no horizonte.
O poeta é aquele que vaga entre os continentes.

Guerra Fria (rascunho)

baseado no filme HyperNormalisation

você se parece com os personagens do filme do Tarkovsky. eu sei que você não viu, mas deveria, já que os filmes são baseados na sua personalidade, no jeito em que seus olhos olham para a parafina quente pingando no piso de uma piscina abandonada, igual do Nostalgia. em seguida você pareceria um tanto o discurso do Reagan, o que o faria deixar o papel de filmes lado b para vencer as presidenciais de uma grande potencia mundial em alto estilo, receber uma quantidade desmensurada de flashes que o fariam ser quem você nasceu para ser, um presidente, um homem da política, um god bless america. e seu currículo poliglota, diplomata, jurista, executivo que com um comando de voz seria capaz de interromper uma guerra iminente, justapor territórios e adequar estados espalhados pelo mundo ao seu conceito de democracia. depois, já com alguns anos nessa posição, purpurinoso em redes de sinal aberta, desmedido em usos de armas bélicas e biológicas, concluiria, no finzinho dessa epopéia dialética, de que os seres humanos são feitos de carne e que cada cidadão tem o direito de comer o que bem entende. que somos aquele osso de galinha descarnado, seco, com um teco de nervo pregado na ponta do metacarpo. um dispositivo com membros que servem para o voo e que devem possuir a autonomia necessária para saber a hora exata de migrar.
nisso eu seria o coadjuvante, o dublê que faz saltos olímpicos perigosos, um alguém que substítuisse os riscos que poderiam atingir um indivíduo em sua soberania. eu conversaria em você em privado, minha Jane Fonda masculina. eu trocaria mensagens subliminares com você e também pornografia, mesmo com a suspeita de estar sendo vigiado pelos agentes de segurança pública, da possibilidade de acidente de um investigador hackear seu celular e descobrir todos nossos planos e nossa intimidade, de invadirem o códigos que supúnhamos ser ininteligíveis em qualquer outra linguagem que não a que criamos durante esse tempo.
na sua candidatura, nos pronunciamentos públicos, eu não teria coragem de permanecer naquela sintonia. encomendei uma antena parabólica e um aparelho de tv por assinatura e quando você se posicionasse frente às câmeras e a audiência nacional se atentasse ao discurso que escreveu enquanto estava de cueca no quarto, eu desaparecia para dar seu completo protagonismo. só eu saberia, entretanto, a forma como pressiona a extremidade do bigode com a ponta do indicados e do dedão, que é como se comporta quando não está sendo transmitido e não há aquele treinamento da equipe de fisioculturistas gestuais programando, segundo por segundo, suas articulações.
quando abrisse a boca, eu apertaria imediatamente o controle remoto numa relação numérica com sua idade e, com um olhar vago, abissal, veria um episódio de Animal Planet sobre a disputa violenta por comida entre dois animais selvagens.

O que nos invade

Eu queria ser invadido. Que entrasse pela porta dos fundos da casa sem autorização, deixasse um recado em branco sobre o criado mudo e bagunçasse a ordem dos livros na estante. Perceba o quanto de silêncio triste se formou sobre essa linha de horizonte na praia, e como o sal tende a nos ressecar a pele ao passo que deixa sobre ela um gosto azedo que nos faz careta. Eu queria ter esse privacidade escancarada como a janela num dia em que uma resolução política importante estivesse para acontecer, a ouvir uma multidão enérgica gritando meu nome para que eu a acompanhasse e me juntasse na passeata. Dessa janela, eu olharia durante muito tempo para fora, esperando com ansiedade que seus cavalos alados entrassem através das grades desta cela que se formou e fossem direto para meu interior. Que você me estimulasse com frases embriagadas de quem bebeu cachaça até passar da conta e, com passos tortos, tentaria imitar um acrobata. Sem pensar no amanhã, cairia tantas vezes necessárias dessa corda bamba imaginária para que aquilo se tornasse um teatro cômico da nossa noite e do nosso amor.
Às vezes a vontade é tanta que eu faço com que você me invada inconscientemente, saboto a escrita para que as linhas encontrem as suas, escrevo seu nome no diário supondo suas ações e os lugares que frequenta. Relembro com os detalhes possíveis desses nossos toques inesquecíveis, onde você me aguardava fumando um cigarro barato por não ter emprego e eu sofria por dentro, mas não por tanto tempo, só até o tempo de atender seus caprichos e seus beijos. Nesse momento, eu gostaria que você me invadisse com eles.
Ontem eu fui na feira sozinho, era o jarro d'água que habitava a geladeira. Na barraca em que vendiam cachos de uva, comprei um par delas, como se você ainda estivesse ao meu lado. Eu queria que você fosse aquele feirante que me perguntou se eu queria as uvas verdes ou roxas, que me deu a opção de escolher entre a sem caroço ou a normal. Eu não sabia responder, pois estava eufórico com tantas possibilidades. Seria fácil colocar em questão somente as cores, como se minha decisão se pautasse por preferências estéticas, ou imaginar que a fruta sem caroço é derivada de infinitas experiências laboratoriais de grandes e perversas corporações alimentícias. Era alguma coisa a mais que estava colocada e que eu não poderia resolver por mim mesmo. Perguntei se as uvas com caroço cresceriam caso eu as colocasse num vaso com terra adubada, se elas germinariam e a plantação no meu quintal ficaria como aquelas que eu via nos programas rurais quando acordava cedo na infância, durante os finais de semana. Lembro das imagens das uvas com clareza, como se pareciam com trepadeiras, que invadem buracos e preenchem o vazio do teto. Eu já te contei que eu plantava sementes em canteiros de casas aleatórias quando morava em Barão Geraldo?
Se aquele homem de avental verde fosse você, tivesse a sua cara e sua voz, portasse o brinco que te dei de presente, eu ainda hesitaria, baixaria a cabeça para refletir sobre o que dizer, certamente faria a escolha certa, discerniria o que é bom para mim.
Eu queria que você me invadisse mais do que já faz, pois quando cheguei em casa a sacola com as uvas eu deixei junto com a sacola que você me devolveu esses dias e que só tive coragem de mexer uma vez. Foi no mesmo dia em que você me devolveu, uma sacola fabricada na sua cidade. Abri o livro enquanto me ajeitava na sanfona do trem articulado e o papel seu entre as páginas me fez com que eu perdesse a estação em que desceria. Li em voz alta para tentar te ouvir entre suas letras escritas com a mão esquerda, mas o que ouvi foi o ruído das rodas do trem no ferro a deslizar para fora do meu território. Só com essas invasões talvez seja possível que eu penetre tão profundamente na situação que consiga me livrar dela, que enxergue os pontos frágeis que só se fazem vistos por quem os frequenta.
Eu queria ser invadido voluntariamente até não querer mais.

Claro enigma

O fundo do poço é o chão.

Pedra sobre pedra

Construí um abrigo solitário no interior da minha casa
para me aperfeiçoar na arte de desaparecer a qualquer hora do dia.
Ela teria todos os mantimentos necessários que serviriam
para o caso de um iminente cataclisma.
Assim, quando eu der as caras na sacada, com os olhos retorcidos
pelo olho do tornado
e os sobreviventes entregarem panfletos de porta em porta,
com notícias do estrago,
iria refazer meus planos naquele cenário inédito.
Meu reino se erguirá da ruína imensa e erma,
sobre a superfície sólida de uma pedra abandonada,
numa cidade muda pelo som da sirene noturna.
Meu abrigo, entretanto, continuaria intimamente guardado
nesse planeta desconhecido,
para futuros desastres.
Num eu que não conheço
deserto de mil graus.

Eco

Quando o vazio fala,
é um pouco de você que eu escuto.

Telefone desligado

Às vezes eu fujo,
que é para não dar tanta pala
desse confessionário paupérrimo que ocorre aqui dentro
do quarto.
Viu, você não sabe quantos dias
eu passei sem ligações suas.
Só eu sei, porque aprendi a contar
desde pequeno
os números que não existem no calendário convencional.
Eu e você somos convencionais, meu bem,
desde os mínimos detalhes,
aos mais extravagantes planos rabiscados nos anúncios da agência
de viagens:
até hoje sonho com o Uruguai que iríamos
de mala e cuia,
roupa lavada, cargueiro e barraca,
eu e você visitando chapados a casa de um literato famoso,
cumprimentando um Mujica a cada esquina,
eu te chamaria: mi amor,
con usted yo podría, con mi propria fuerza,
edificar un imperio.
Seus olhos pactuariam, primeiramente, com essa minha afirmação,
olhariam firmes para a paisagem do país
e voltariam para mim com aquele ar de Monalisa,
indecifrável.
Ou de Betty Boop. Eu sempre soube que aquela cara achatada,
tem um caos no meio da fuça, como qualquer jazz que se aprecie
porque sorriso algum engana certas vibrações
e nesse momento eu me sinto vacinado.
Logo em seguida, desconstruiria a ideia tola,
pois não quer nenhum presente grande,
uma casa discreta é só mon petit loup.
Às vezes eu fujo,
para um território estrangeiro
nas divagações da própria cabeça
flutuando entre o almoço e papos de política:
eu deveria estar comendo legumes
ou no ônibus do movimento estudantil para Brasília?
E isso é só o começo,
bem convencional como o fim,
quando se joga confete no ar, o carnaval
já foi fim de mês passado,
se eu soubesse, teria me agarrado firme no folião
para perder o bonde da conversa,
dos planos, da minha cara de tacho,
das fugas que não sei para que servem
da cara de gente famosa
dessa paquera, uma merda de furada certa.
Eu queria:
um minuto de nossa conversa na caixa-postal.
Fugir-se é um bom pretexto.

Caetango

No tempo em que eu não te vejo, compro uma garrafa no primeiro bar que aparece e bebo, bebo o mais rápido para verificar o fim de alguma coisa. Primeiro a cerveja, que se pede uma a uma, e que se exaure em seguida, pois numa análise é preciso de vários exemplos, vivos, e edificar qualquer tese exige gestos repetidos fraudulentos. Para se concluir de que não é uma ilusão é preciso de trabalho ardiloso. Mas também de uma ciência. Não, eu não acho que tenhamos sido uma ilusão, sequer uma ciência. Que a nossa história tenha sido construída sobre o nada. Não sei de modo algum falar sobre a nossa história. E por isso eu bebo uma cerveja atrás da outra, para não ver o fim dessa narrativa que fantasiamos tantas vezes. E nesse jogo, eu tento variar as regras, inverto o tabuleiro com as peças brancas e pretas misturadas, e com mais uma cerveja que peço pro renato, no banquinho em que tem uma goteira no toldo bem em cima da minha cabeça, desenvolvo estratégias inéditas nesse modo de jogar. O que eu faço nesse instante é encarar o casco cheio, sem me mover, e constatar que o mundo existe sem a nossa presença. Nesse lero, sim, com você, o que eu quero realmente não é falar sobre a garrafa imóvel em cima da mesa, ou como podemos transformar a rotina em algo entediante, sobretudo sobre o fim inevitável dessa cerveja que acabo com sequências de goles bem servidos, gulosos, como se estivesse te amando. É o bom que resta em nós. E que sempre foi bom. Pelo menos assim eu tento minimamente me conectar em uma outra frequência com esse líquido que engulo, associando-o à filosofia de quinta e ao amor brega, provocando a mudança da minha perspectiva sobre como é possível se relacionar com alguém depois de ter te visto escovar os dentes, e sobre as múltiplas variáveis dessa garrafa de cerveja que você não bebe.
Eu, sim, bebo. E bem. Entendo-a infinitamente.
Sabendo que não sairei do lugar se não decidir, vou para a estação de trem em direção à usp.
O auditório não estava assim tão cheio quando me sentei, junto com um menino que não tenho muita afinidade, mas é a afinidade que tenho, um papo meio frouxo que desenvolvo por carência, como as cadeiras vazias. Pelo menos com sorte de encontrar apoios de braços inteiros e escrever no diário. As luzes se apagaram e eu via pouca coisa, por conta dos óculos cujo grau aumentou, também pela situação. Eu no meu canto, escondido nas laterais.
A apresentação não tinha sequer começado, uma exposição da biblioteca e seus cômodos, a data de criação e o protocolo institucional sempre a mesma ladainha.
E no tempo em que não te vi eu costumo chegar bêbado nesse lugares, assim crio coragem pra te evitar, mentindo pra mim que nosso caminho não se cruza facilmente, embora frequentemos os mesmo lugares, a mesma universidade, o mesmo bar do samba das sapas desse sábado no Largo da Batata. E não era de se esperar que aquilo fosse acontecer. Que estivéssemos ao acaso um do lado do outro, na batucada, e depois naquele escuro do auditório, tão denso, que permite esse tipo de acidente.
E depois que eu te vi, foi como se todo nosso filme passasse pela apresentação de power point. E não pude fazer diferente, foi engraçado, e te chamei para conversar. Fazia tempo que não falávamos, assim, um olhando pro fuço do outro. Revivendo pequenas lembranças em breves silêncios. Eu não vou escrever sobre a gente ali, sentados numa passagem da escada, porque também eu nunca sei terminar um texto.
O que eu quero, com tudo isso, além desse papo de cerveja, além desse auditório, além do nosso toque de rosto e sua barba, aquele carinho que me dá vontade de te agarrar, e como dá. O que eu quero é te dizer que quando cheguei em casa tocava a música Sonhos, do Caetano, em versão tango. Esse texto inteiro é só pra isso. Pra que você também saiba que essa versão é mais animada que a original e embalou minha chegada em casa. Que tudo acontece ao mesmo tempo, nossos encontros, nossa confusão tão efusiva. O que eu quero é não saber estruturar nossa ficção e nosso acidente, mínimos.


mas não tem revolta eu só quero que você se encontre saudade até que é bom melhor que caminhar vazio a esperança é um dom que eu tenho em mim eu tenho sim  não tem desespero não você me ensinou milhões de coisas tenho um sonho em minhas mãos amanhã será um novo dia certamente eu vou ser mais feliz

Porque

não é fácil entender os acidentes mínimos.