O que nos invade

Eu queria ser invadido. Que entrasse pela porta dos fundos da casa sem autorização, deixasse um recado em branco sobre o criado mudo e bagunçasse a ordem dos livros na estante. Perceba o quanto de silêncio triste se formou sobre essa linha de horizonte na praia, e como o sal tende a nos ressecar a pele ao passo que deixa sobre ela um gosto azedo que nos faz careta. Eu queria ter esse privacidade escancarada como a janela num dia em que uma resolução política importante estivesse para acontecer, a ouvir uma multidão enérgica gritando meu nome para que eu a acompanhasse e me juntasse na passeata. Dessa janela, eu olharia durante muito tempo para fora, esperando com ansiedade que seus cavalos alados entrassem através das grades desta cela que se formou e fossem direto para meu interior. Que você me estimulasse com frases embriagadas de quem bebeu cachaça até passar da conta e, com passos tortos, tentaria imitar um acrobata. Sem pensar no amanhã, cairia tantas vezes necessárias dessa corda bamba imaginária para que aquilo se tornasse um teatro cômico da nossa noite e do nosso amor.
Às vezes a vontade é tanta que eu faço com que você me invada inconscientemente, saboto a escrita para que as linhas encontrem as suas, escrevo seu nome no diário supondo suas ações e os lugares que frequenta. Relembro com os detalhes possíveis desses nossos toques inesquecíveis, onde você me aguardava fumando um cigarro barato por não ter emprego e eu sofria por dentro, mas não por tanto tempo, só até o tempo de atender seus caprichos e seus beijos. Nesse momento, eu gostaria que você me invadisse com eles.
Ontem eu fui na feira sozinho, era o jarro d'água que habitava a geladeira. Na barraca em que vendiam cachos de uva, comprei um par delas, como se você ainda estivesse ao meu lado. Eu queria que você fosse aquele feirante que me perguntou se eu queria as uvas verdes ou roxas, que me deu a opção de escolher entre a sem caroço ou a normal. Eu não sabia responder, pois estava eufórico com tantas possibilidades. Seria fácil colocar em questão somente as cores, como se minha decisão se pautasse por preferências estéticas, ou imaginar que a fruta sem caroço é derivada de infinitas experiências laboratoriais de grandes e perversas corporações alimentícias. Era alguma coisa a mais que estava colocada e que eu não poderia resolver por mim mesmo. Perguntei se as uvas com caroço cresceriam caso eu as colocasse num vaso com terra adubada, se elas germinariam e a plantação no meu quintal ficaria como aquelas que eu via nos programas rurais quando acordava cedo na infância, durante os finais de semana. Lembro das imagens das uvas com clareza, como se pareciam com trepadeiras, que invadem buracos e preenchem o vazio do teto. Eu já te contei que eu plantava sementes em canteiros de casas aleatórias quando morava em Barão Geraldo?
Se aquele homem de avental verde fosse você, tivesse a sua cara e sua voz, portasse o brinco que te dei de presente, eu ainda hesitaria, baixaria a cabeça para refletir sobre o que dizer, certamente faria a escolha certa, discerniria o que é bom para mim.
Eu queria que você me invadisse mais do que já faz, pois quando cheguei em casa a sacola com as uvas eu deixei junto com a sacola que você me devolveu esses dias e que só tive coragem de mexer uma vez. Foi no mesmo dia em que você me devolveu, uma sacola fabricada na sua cidade. Abri o livro enquanto me ajeitava na sanfona do trem articulado e o papel seu entre as páginas me fez com que eu perdesse a estação em que desceria. Li em voz alta para tentar te ouvir entre suas letras escritas com a mão esquerda, mas o que ouvi foi o ruído das rodas do trem no ferro a deslizar para fora do meu território. Só com essas invasões talvez seja possível que eu penetre tão profundamente na situação que consiga me livrar dela, que enxergue os pontos frágeis que só se fazem vistos por quem os frequenta.
Eu queria ser invadido voluntariamente até não querer mais.

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